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PARLAMENTO EM FOCO: A PSICOLOGIA DO PODER – Pedro Lacerda

A natureza humana possui várias facetas. Muitas das quais inexploráveis, tendo em vista o grau de subjetivismo existente na psique de cada indivíduo. O “universo” existente na nossa mente reflete um oceano de sentimentos, perspectivas e comportamentos.

O ramo do conhecimento denominado psicologia surge com o fim de tratar os estados e processos mentais, comportamentais dos seres humanos e suas interações com um ambiente físico e social.

E nesta intersecção entre o ambiente físico e social, encontramos as relações oriundas da conjugação dos processos mentais manifestados no campo do poder – entendido como a capacidade ou possibilidade de ação que gera efeitos sensíveis no mundo dos fatos.

Notadamente no meio do poder político é possível percebermos uma série de manifestações comportamentais recorrentes, todas relacionadas com a influência do exercício do poder político e/ou do gozo das “benesses do poder”.

Assim, passa a ser possível constatar em qualquer esfera na qual haja a presença do poder político uma série de comportamentos que se reproduzem de forma a nos permitir falar em uma “Psicologia do Poder”.

Seria esta interpretação psicológica do comportamento humano capaz de perceber perfis comportamentais recorrentes que dão o tom preponderante nas relações interpessoais oriundas do meio político.

É comum que o “ungido” com mandato eletivo passe a exercer a função de falo (símbolo) desejado por todos aqueles ao seu redor. Surge uma aura de distinção social e sapiência naqueles que rodeiam a autoridade de forma que manifestações comportamentais dirigidas ao donatário do poder sejam recorrentemente realizadas.

O político passa, após a vitória eleitoral e posse no cargo respectivo, a ser tratado como um ser diferente, promovido a integrante de uma casta do estrato social, dotada de possibilidades de interferir imediatamente na vida de quem está em seu entorno e mediatamente em todo o tecido social.

Manifesta-se, assim, o surgimento das famosas “claques de bajuladores”, tanto os que gozam de parte do poder do eleito, como daqueles que nutrem a expectativa de vir a integrar determinado núcleo formado em torno dele – seja em um gabinete, partido ou representação sindical.

Tal qual em uma monarquia absolutista, seja na menor Câmara Municipal do Brasil ou no Congresso Nacional, a corte que vive no entorno do poder luta para manter-se alinhada com o pensamento do líder, seja na forma de vestir-se ou nos hábitos sociais.

Nada pode ser feito de forma que venha a contrariar o ungido, de uma palavra que ele não gosta a cor que relaciona com a má-sorte! A energia é gasta em agradar ao detentor do poder político e tornar-lhe viável todo e qualquer capricho.

Vemos, assim, um terreno mais que fértil para o surgimento de grandes egos e vaidades, que passam a crer realmente serem seres humanos diferenciados e posicionados acima daqueles que os elegera. Ou seja: deliram ao achar que são o poder.

O “ungido” apressa-se em adquirir hábitos refinados, mudar de endereço – deixando para trás aquela referência social de onde veio – e muitas vezes até de cônjuge, tudo para sentir-se “um igual” entre seus colegas.

E neste ciclo vicioso de bajulação e vaidades, perde-se o foco principal de toda e qualquer representação política, que é a luta pela consecução do bem comum.

O eleito não pode ser contrariado. Dizer algo diferente daquilo que ele espera ouvir passa a ser tratado como um “pecado capital”, por parte da claque de asseclas que o cerca.

Os novos cortesãos são os elementos mais deletérios que existem e se criam nessa “fauna da psicologia do poder”.

Apressam-se em usar de truques, artimanhas e manobras com o fito de atingir toda e qualquer pessoa que julgam ameaçar seus gozos das migalhas do poder que julgam serem seus legados.

Normalmente reagem aos técnicos e capacitados, por temerem perder seus espaços no grupo formado pelo eleito. Voltam-se contra eles em jogos sujos de mentiras e intrigas, tudo para afastar o espírito público do pântano de seus interesses não republicanos.

E nesta ciranda das vaidades, muita energia é gasta em agradar ao “Rei”, em intrigas palacianas – e pouquíssima visando produzir conteúdo que justifique o preço pago pela sociedade através do custo da democracia; traduzido em milhões de reais que sustenta a máquina pública brasileira.

O grande erro comum aos detentores do poder político é raciocinar como se fossem seus mandatos uma benesse familiar e hereditária.

Agem de forma desconectada da realidade e se comportam de maneira a refletir a crença de que, como os Faraós da antiguidade egípcia, mesmo após a morte continuarão exercendo o poder em benefício pessoal e de seus asseclas.

Verdadeiros são os infortúnios observados diariamente para aqueles que convivem com a “Psicologia do Poder”. Pois, na maioria esmagadora das vezes o eleito, ao perder o poder político, toma um duro choque de realidade.

Em um “piscar de olhos” deixa de ser “Excelência”, deixa de ter asseclas sorrindo antes de terminarem a piada; já não mais escutam seus telefones tocarem e sem a estrutura da máquina pública ao seu dispor caem em uma espécie de purgatório.

Não são mais “pessoas normais”, muito menos “poderosos”, recebem o fúnebre prefixo “Ex”, antes do anúncio do cargo que exerciam. Passam a ficar invisíveis aos olhos dos seus então colegas. No folclore da política são chamados de “mortos vivos”.

E assim, como muitas vezes não mais conseguem retornar a um mandato eletivo, purgam os seus pecados em um ostracismo suplicante, reflexo das suas escolhas vãs e vaidosas. Uma tormenta de arrependimentos tardios e autoflagelos por terem sido tão cegos.

Pois, ao invés de trabalharem durante seus mandatos por uma sociedade mais justa, cometeram o gravíssimo erro de acreditar ser o poder – quando na verdade nada mais foram do que instrumentos defeituosos dele, verdadeiros “efeitos colaterais da democracia”.

Pedro Lacerda é advogado e colunista do Observatório de Olinda

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