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PARLAMENTO EM FOCO: O EDUARDO QUE EU VI – Pedro Lacerda

Pernambuco é um Estado marcado por tradições culturais, belezas naturais e fortes lideranças políticas. A importância da nossa terra para o cenário político brasileiro é marcante. Inúmeros quadros, desde os tempos do Brasil Império, saíram do nosso chão para brilhar no cenário nacional.

Dentre tantos, ressalto a figura do saudoso Ex-Governador Eduardo Campos. Hoje seria o dia de seu aniversário de 55 (cinquenta e cinco) anos, lamentavelmente não completados pelo fatídico acidente aéreo ocorrido em 13 de agosto de 2014.

Não serei cabotino no sentido de dizer que fui amigo de Eduardo. Infelizmente não tive essa oportunidade. Mas, através das mãos do meu querido amigo e padrinho Milton Coelho, nos anos de 2008 a 2010, e depois junto ao também querido amigo e mestre, Guilherme Uchoa, estive na “órbita” dele até o seu precoce desaparecimento.

Tive o privilégio de bem jovem, então com 27 (vinte e sete) anos, estar ao lado de meu amigo Milton Coelho em sua pré-campanha, e na campanha, que o elegeu Vice-Prefeito do Recife, e João da Costa Prefeito, em 2008. Conheci Milton em 2000, através da nossa militância política em nosso time do coração, o Sport Club do Recife.

Milton então com 36 (trinta e seis) anos, já era um importante político e dirigente partidário do Partido Socialista Brasileiro (PSB), além de naquela oportunidade já ser um respeitado Auditor de Contas Públicas do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE).

Ligadíssimo político e intelectualmente ao grande mito pernambucano, Miguel Arraes, gozava de grande respeito nas hostes socialistas por sua capacidade intelectual, articulação política e visão estratégica muito além de questões eleitorais.

Era contemporâneo dos tempos de universidade de Eduardo Campos, de quem se tornou amigo, confidente e um importante conselheiro e interlocutor. Tenho certeza que Pernambuco ainda verá o brilho de Milton indo além dos bastidores da política, pois com certeza tem muito a contribuir com nosso Estado e na luta por dias melhores para nosso povo.

Em 2000 eu era um jovem universitário recém-ingresso na Faculdade de Direito de Olinda, tinha 19 (dezenove) anos. Dava meus primeiros passos na militância política, ajudava a fiscalizar nos dias de eleição em Olinda, naquele tempo era filiado ao PMDB.

Mas, no campo esportivo, já contava com experiência de várias eleições no Sport Club do Recife, sempre ao lado de meu pai, Pedro Lacerda. Sem dúvidas se não fosse o ambiente eleitoral do “Leão da Ilha” eu não teria me apaixonado pela política e seus desafios.

Assim, forjada nas lutas políticas do Sport, constitui amizade fraterna com Milton e outros queridos amigos, como Júlio César Soares.

Quando foi definido que Milton Coelho seria o candidato a Vice-Prefeito no Recife, na chapa com João da Costa, surgiu por parte dele convite para que eu passasse a trabalhar, primeiro em sua pré-campanha e depois no período eleitoral propriamente dito.

E aí eu tive a oportunidade que referi no título deste artigo, qual seja “ver Eduardo”. Já na pré-campanha era comum Milton reunir-se com Eduardo e lá eu estava.

Era o “Menudo” que segurava o celular e o cigarro de Milton, anotava os recados e pedidos, ajudava nos deslocamentos no meio do povo durante as caminhadas e presenciava praticamente tudo que ocorria em seu dia-a-dia.

E nesta missão aparentemente simples, comecei a aprender como se faz e se dá a política de alto nível. Estratégia, diplomacia, resolução de conflitos, trabalho duro, tudo isso aprendi através dos anos com Milton Coelho.

Lembro de ver Eduardo chegando na sede do PSB (Partido Social Liberal) e a forma como se dirigia aos que trabalhavam no partido.

Folha, Índio, Elias, Everaldo Procópio, Rubem “Flecha Ligeira”, Honorato Leitão, Pedro da Várzea, Adílson Gomes, Niedja, Simone, Roberta, Patrícia, Edelsinho, dentre outros, eram tratados como parte do grupo daquele que já era o reluzente Governador de Pernambuco. Como eu passava o dia com Milton, que era o Presidente estadual da legenda, conversava – e muito – com todos eles.

Cada um tinha uma história marcante com Eduardo, sempre gizada pela parceria, solidariedade, espírito de grupo e força de liderança. Não vou escalonar os níveis de relação de cada um deles com ele, pois seria necessário escrever um livro!

Eu, no início um “elemento estranho” naquela trincheira, fui me afeiçoando a todos. O clima que se apresentava era de extrema confiança em um grupo sólido, muitos dos quais oriundos dos tempos de Dr. Arraes, que estavam sob o comando de “Dudu”, como os mais antigos o chamavam.

Desta forma, passei a ter no PSB (Partido Socialista Brasileiro) uma extensão da minha casa. Pelas mãos de Milton Coelho fui aceito no meio e passei a ser tratado com muito carinho e consideração.

Anote-se que eu já era amigo, e muito, do saudoso Ex-Prefeito de São Vicente Ferrer, Honorato Leitão, também torcedor do Sport e membro do nosso grupo político na Ilha do Retiro.

Lembro que junto com meu pai e outros rubro-negros, nos encontrávamos todo sábado para tomar uma cervejinha, na piscina do Sport ou em algum bar do Recife. Frequentávamos muito o bar “Costureira”.

E lá, ao dizer a Honorato que eu seria candidato a Vereador em Olinda, o ano era 2004, ele pegou um guardanapo de papel e escreveu: “Política, a gente entra por causa dos amigos e não sai por conta dos inimigos”.

Uma das lições mais profundas que aprendi em uma mesa de bar, e se adequa perfeitamente, em parte, ao que ocorre no mundo político. Com o início da campanha eleitoral do Recife, em 2008, a frequência de contato com Eduardo e seu “mundo político” foi se intensificando.

Lembro que passávamos o dia em atividades da campanha, que iam de reuniões de estratégia no comitê até as várias caminhadas diárias pelas ruas do Recife.

E muitas e muitas vezes, depois dos trabalhos eleitorais e já por volta das 20:00hs, chegávamos ao Palácio do Campo das Princesas para Milton conversar com Eduardo. Foi assim que conheci a intimidade daquele prédio marcado pela história política do nosso Estado.

Os jardins, os corredores, a cozinha, o gabinete do Governador, o “segundo andar”, áreas palacianas que passaram a fazer parte de muitas noites e madrugadas e trabalho e política.

Gostava de chegar lá e fumar um cigarrinho com minha amiga Rosa, falando sobre política e ouvindo o silêncio do Palácio, depois de uma deliciosa sopinha servida diariamente.

Sim, uma sopinha! Pois, com Eduardo Governador o expediente era de três turnos e sem intervalo! Impressionava-me o ritmo de trabalho e a quantidade de gente laborando até altas horas da madrugada.

E o foco não era política, longe disso! Presencie, e muito, autoridades de todo o Estado aguardando para despachar com Eduardo assuntos administrativos. A política, somente tomava a pauta depois que as obrigações institucionais tinham sido finalizadas.

Muitas vezes eu ficava na varanda do segundo andar, contemplando o silêncio e a beleza do Palácio, quando chegava um dos garçons de lá (muitas vezes Marcos), com um pratinho para mim dizendo que Eduardo e Milton tinham mandado. Sempre fui tratado com muito carinho, por todos.

Com o esquentar da campanha, passei a acompanhar Milton nas idas à casa de Eduardo, em Dois Irmãos. Lembro que a primeira vez que fomos lá disse a Milton que ficaria no carro, com meu amigo Rubem “Flecha Ligeira”, enquanto ele estivesse despachando os assuntos que tinha.

E Milton, sorrindo, me disse: “Leozinho, na casa de Eduardo todo mundo é bem vindo. Pode vir que tem lugar para você”. E durante meses, foi assim. Chegávamos na casa de Eduardo, entrávamos, e Milton se reunia com ele com os demais atores do momento.

Recordo o dia em que Lula veio ao Recife para gravar o guia para João da Costa. Havia um “empecilho” político para a referida gravação que era a candidatura de Cadoca, cujo partido era aliado de Lula no plano nacional, fato que impedia que ele se manifestasse em relação a um dos nomes postos na sucessão do Recife.

Era um sábado quando Milton entra no carro e diz: “Rubem, toca para Dois Irmãos, e rápido”! Eu sabendo que havia essa possibilidade de Lula vir, perguntei a Milton quando nos aproximávamos da casa e presenciei um aparato de segurança que jamais tinha visto.

Milton é o que estou pensando? Lula veio? E sorrindo ele se vira e diz: sim, Leozinho. Você vai conhecer o Presidente do Brasil. E foi exatamente o que ocorreu.

Entrei um pouco nervoso na casa, que estava lotada, políticos de várias cidades de Pernambuco, que desejavam uma foto ou gravação de áudio com Lula – as redes sociais na época nem existiam, ou se existiam era irrelevantes, bem diferente de hoje. Conheci Dilma Rousseff, José Múcio Monteiro, Aloízio Mercadante e praticamente toda a cúpula política do então presidente Lula.

Presenciei quando Lula, trajando sua camisa jeans habitual e fumando uma cigarrilha, gravou para Milton Coelho e João da Costa, na sala da casa de Eduardo, impulsionando a nossa vitória em 2008.

Naquele dia, tanto quanto o Presidente Lula, Eduardo brilhava em meio à nata da política pernambucana e nacional, num presságio de que missões muito mais amplas viria ele a ter em nosso cenário político nacional. E assim, orbitei próximo a Eduardo Campos até o ano de 2010, fazendo muitos e queridos amigos no PSB (Partido Socialista Brasileiro) que possuíam anos de amizade e convivência com Eduardo.

Vencemos as eleições em 2008, João da Costa foi Prefeito do Recife e Milton Coelho seu Vice-Prefeito. Em 2010 saí do gabinete de Milton, onde era Assessor Jurídico, para tomar posse como Técnico Ministerial do Ministério Público de Pernambuco.

Mesmo longe do dia-a-dia da política, jamais deixei de reverenciar a liderança de Eduardo e sua forma de fazer política. No dia de seu falecimento estava em meu escritório, com meu pai, quando vi a notícia que um avião tinha caído e que podia ser justamente o dele.

Gelei, por ele e por medo de que Milton Coelho estivesse junto. Naquele tempo Milton estava em São Paulo integrando a Coordenação Nacional da campanha de Eduardo para Presidente do Brasil.

Liguei para a esposa de Milton, Simone, que muito abalada me disse que Milton não estava no avião, mas que, infelizmente, Eduardo e Percol estavam. Ninguém sobreviveu.

Falei com Júlio César Sores, amigo-irmão de Milton e meu querido amigo também. Fomos buscar Milton no aeroporto de Recife, depois que voltou de São Paulo para os funerais de Eduardo e Percol.

Estive no velório no Palácio do Campo das Princesas, inicialmente desde a madrugada, sozinho, no meio do povo. Vi o carro do Corpo de Bombeiros lá chegar, com os caixões. Chorei.

Retornei pela manhã e acompanhei todo o velório, só me ausentando quando recebi ligação de minha esposa, então grávida de nossa filha Pietra, me dizendo que estava com dores e indo para o hospital. Emocionou-se com a tragédia e foi hospitalizada.

Pouco tempo depois deixei o MP/PE para me dedicar à iniciativa privada, só retornando para o meio político em 2015, desta vez servindo a outro querido amigo e Mestre, Guilherme Uchoa.

Acompanhei a saudade que Guilherme Uchoa tinha de seu amigo-irmão Eduardo e tomei conhecimento do quanto o trabalho em conjunto de Eduardo Campos, no Governo de Pernambuco e Guilherme Uchoa, na Presidência da ALEPE, foi fundamental para o desenvolvimento do nosso Estado.

E foi assim que vi Eduardo. Humano, leal, amigo dos amigos, inteligente, firme, duro, bravo, manso, estrategista, pai, marido, filho, por conta da proximidade e do trabalho com Milton Coelho estive perto daquele que se tornou um “amigo”, referência, líder, exemplo, sem que tivéssemos efetivamente construído uma amizade.

Hoje o Céu está em festa…

Pedro Lacerda é advogado e escreve às segundas-feiras para o Observatório de Olinda.

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