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PARLAMENTO EM FOCO: “E O VENTO LEVOU” A LUCIDEZ E RESPEITO PELA HISTÓRIA – Pedro Lacerda

Amigos leitores, manifesto votos de uma abençoada semana para cada um de vocês e famílias. Desejo ainda melhoras aos que convalescem dos efeitos da Covid-19, e externo meu pesar para quem perdeu amigos e familiares.

A peste dá sinais ao redor do mundo de que está longe de cessar e devemos manter os cuidados de higiene, uso de máscaras e o máximo isolamento social possível.

Deixo, em tempos tão sombrios, a mensagem escrita pelo Santo São Josemaria Escrivá (cuja festa litúrgica ocorreu em 26/06), em seu livro “Caminho” (ponto 263) que assim escreveu: “Não desanimes. – Eu te vi lutar… A tua derrota de hoje é treino para a vitória definitiva”.

A coluna desta semana é escrita em homenagem ao grande jurista, professor e advogado, Roque de Brito Alves. Homem de rara cultura e sensibilidade humanística que nos deixou recentemente levado pela triste Covid-19. A Ciência do Direito agradece o seu legado.

Filmado em 1939 o épico filme “E O VENTO LEVOU” entrou para a história do cinema como um dos mais significados expoentes da 7ª Arte. Para grande parte da crítica especializada é o “Clássico dos Clássicos”, pelo conjunto das interpretações, produção e avanços tecnológicos da época como o uso de Technicolor (método que coloriu as antes alvinegras telas dos cinemas) e recursos cenográficos inovadores.

A película, lançada no Brasil em 1º de janeiro de 1940, narra a história de Scarlett O’Hara (magistralmente interpretada pela atriz Vivien Leigh), uma jovem tola e aristocrática acostumada a ter seus caprichos sempre realizados.

Ela ambiciona o amor de Ashley Wilkes (Leslie Howard), um nobre sulista que está prometido em casamento à sua prima Melanie (Olivia de Havilland). A trama se desenrola tendo como pano de fundo a eclosão da Guerra Civil Americana (1861-1865 motivada por controvérsias sobre a escravidão dos negros entre os Estados do Norte e do Sul) e Scarlett precisa lutar para sobreviver e manter a fazenda da família.

Passados mais de 80 (oitenta) anos de sua realização o filme ainda é celebrado pelas brilhantes atuações de seu elenco, com destaque para Clark Gable (Rhett Butler), Vivien Leigh (Scarlett O´Hara), Ashley Wilkes (Leslie Howard) Olivia de Havilland (Melanie Hamilton) e Hattie MacDaniel (Mamãe).

Ressalto a atuação da atriz Hattie MacDaniel (Mamãe), reconhecida em 1940, pela Academia de Cinema Americana, com o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua magnífica interpretação no “Clássico dos Clássicos”.

E será ela caro leitor, Hattie MacDaniel, o elo que descortinará a análise que nossa coluna se propõe a fazer, no presente texto. Hattie MacDaniel era negra e foi a primeira afro-americana a ter seu trabalho reconhecido com a maior comenda do cinema mundial. Ora, e a sua etnia deveria ser relevante, uma tipo de “qualificação” da sua pessoa? Por óbvio, não.

Nenhum ser humano deveria ser avaliado por qualquer condição física, etária ou social. O que define uma persona é seu caráter, correção e conduta para consigo e os outros, jamais a cor da pele ou sua origem.

Qualquer um de nós que rever (e recomendo que o façam!) o filme “E O VENTO LEVOU” reconhecerá o talento magnífico que Hattie possuía, indiferente e desvinculado da quantidade de melanina que havia em sua pele.

Faço um “corte na edição do tempo” e passo de 1940 para 2020. Estamos agora em 25 de maio na cidade de Minneapolis, Estados Unidos.

Dia em que o também afro-americano George Floyd, um trabalhador estadunidense, foi brutalmente assassinado por policiais locais, submetido ao suplício de um sufocamento assustador, covarde e brutal.

A trágica morte de Floyd detona ao longo do mundo, partindo do solo Norte Americano, uma onda de manifestações pelo fim do racismo e do abuso policial, que se dá não apenas na maior potência do globo, mas em todos os seus recantos.

O racismo é um dos mais covardes comportamentos humanos, fruto de preconceito e ignorância, aplicada não só aos negros, mas também aos asiáticos e latinos.

Não há sequer um ser humano em pleno gozo de suas faculdades mentais que não abomine o racismo e suas tristes consequências. O martírio de George Floyd impulsionou as necessárias manifestações e cobranças de respeito aos negros, extensivas aos asiáticos e latinos, de maneira jamais vista em tempos globalizados, como vivemos.

Porém, uma grave e perturbadora deturpação do nosso brado por justiça e respeito aos descriminados veio a se dar. Abro uma janela para relatar um acontecimento a mim afeto (pardo que sou), quando estudante da 7ª série do antigo 1º grau.

Em uma aula de história, fiz colocação ao então professor sobre o contexto histórico em que se deu a escravidão no Brasil e a representatividade da força econômica dos cativos para o desenvolvimento da Colônia e do mundo de então – raciocinando como se deve promover a análise de fatos passados: como base na realidade daquele tempo.

Escutei a seguinte resposta: “Seu raciocínio em termos econômicos está correto, mas naquele tempo queria ver como seria, pois estarias mais para a senzala do que para a Casa Grande”.

Pela primeira vez vi um “antirracista” sendo intolerante por ter se incomodado com a reflexão realística de um garoto de 14 (quatorze) anos, usando a minha cor de pele como forma de me constranger.

Passados alguns dias dos protestos, em várias nações, iniciamos a ver atos de vandalismos contra monumentos históricos. Sim, depredações de registros de um tempo que se passou, que deve ser analisado à luz de suas circunstâncias, ocorreram numa catarse de ódio e falta de respeito, incompatíveis com a luta por tolerância e justiça.

Na cidade inglesa de Bristol, no domingo 07 (sete) de junho a estátua do escravocrata Edward Colston foi vandalizada e jogada em um rio. Outras estátuas sofreram a mesma depredação na Inglaterra e em outros países.

Nos últimos anos temos presenciado atitudes semelhantes aqui também no Brasil e no Recife, cidade na qual uma então vereadora apresentou projeto de lei para retirar nomes de ruas da nossa capital que são de integrantes do Regime Militar (1964-1985).

Apagar a história é o caminho objetivo e prático para resolver as mazelas sociais e comportamentais que vivenciamos? Tentar privar as futuras gerações de conhecer a realidade de tempos passados é uma prestação de serviço positiva para a futura compreensão da história do Brasil e do mundo?

Por óbvio a resposta é não. Aprendemos, nos primeiros contatos com o estudo da cadeira de História, ainda nos bancos escolares, que analisamos o passado a fim de aprender as lições dos que nos antecederam de forma que não repitamos seus erros no tempo presente e no futuro.


Os acontecimentos políticos e sociais de outrora devem ser analisados sob a ótica de seu tempo, não para legitimar os comportamentos atualmente vistos como equivocados de então, mas para que possamos compreender o motivo de sua ocorrência e não mais repeti-los. Assim que a sociedade evolui.

É um grave engano pensar que a escravidão só foi aplicada na era moderna e aos negros. Na Grécia antiga era uma prática usual e comum na sociedade de então – e também em todas as sociedades da antiguidade.

Dados históricos apontam que em Atenas a maioria dos cidadãos possuía ao menos um escravo e eram brancos. Sim, brancos escravizando brancos!

Por dívidas, como fruto de dominação de territórios em guerras, a subjugação de um ser humano por outro, equiparando-o a um objeto ou semovente, é muito anterior à era moderna. Fato que não ameniza a gravidade deste comportamento visto aos olhos do nosso tempo.

Em África, segundo diversos estudos realizados, os africanos escravizavam-se uns aos outros, por questões de identidade cultural e comercial. Existiam várias formas de um ser humano ser tornar escravo na África, a mais comum era o “escravo de guerra”.

Naquele tempo, em uma guerra entre povos africanos, o vencedor escravizava seus vizinhos, para uso interno (na tribo vencedora) ou para fins comerciais, quando o povo vencedor vendia seus semelhantes da tribo vencida na Costa Africana.

Também se escravizava por dívidas, por julgamento de crimes, prática de heresias e outras ameaças.

Ou seja: negros escravizavam negros, assim como na Grécia Antiga brancos escravizavam brancos, por ser a subjugação do homem pelo homem um instrumento de dominação (motivado por vários fatores) incondicionado a cor da pele. Com base nesses estudos, amplamente conhecidos, seria justo depredar símbolos da cultura africana?

Demolir marcos de sua religiosidade, por julgar que se entre os africanos também ocorria à escravidão, igualmente por fins comerciais dentre outros, faria com que a história dessas tribos fosse invalidada e merecedora de ser apagada da história?

A resposta é simples: não! A existência da prática da escravidão, inclusive comercial, entre tribos africanas de então não apaga os abusos, atrocidades e genocídio da escravidão moderna.

Porém, de forma científica e lúcida, temos que analisar os fatos históricos conforme seu tempo e não buscar “vingança” em pleno ano de 2020 contra marcos históricos de um tempo absolutamente diverso do nosso.

Ao contrário, devemos preservar a história, seus fatos e elementos físicos para que com o avançar dos tempos às gerações futuras venham a compreender que tipos de comportamentos, no contexto contemporâneo, não podem mais ser tolerados.

É papel dos Parlamentos, Federais, Estaduais e Municipais e das Instituições Democráticas enfrentar esse tema com altivez e respeito, sobretudo pela memória da nossa civilização.

Em Olinda e Pernambuco as casas de Bernardo Vieira de Melo (Câmara Municipal de Olinda) e de Joaquim Nabuco (abolicionista que é o patrono da Assembleia Legislativa) tem o dever de manter inalterados os signos, marcos, nomes de ruas e demais elementos das suas histórias.

Inaceitável cogitar a mudança do nome de uma rua, praça ou monumento histórico tendo em vista a imposição de julgamento com base em valores modernos a fatos passados.

Trata-se de uma “intolerância histórica”, verdadeiro “preconceito posterior aos fatos”, quando se condena à luz de valores e costumes de hoje pessoas que sequer tiveram o menor contanto com a forma de pensar que nos é corriqueira.

O direito penal (brilhantemente ministrado por nosso homenageado Roque de Brito Alves) nos ensina que a lei penal não retroage para agravar a situação do acusado, nem que existe crime sem lei anterior que o defina. São garantias aos cidadãos contra o arbítrio do Estado e em comparação devem ser estendidas aos fatos históricos.

Repetir os erros da Inquisição com queimas de livros, atualmente com fogueiras que seriam usadas para derreter estátuas, é embarcar em um surto coletivo de intolerância de força proporcional às mazelas de nosso tempo, dentre elas o racismo, preconceito e injustiças sociais. Em dito popular seria o “sujo falando do mal lavado”.

Os personagens do passado, outrora heróis e hoje vilões (e vice-versa), devem ter seus legados preservados para que justamente com o evoluir dos séculos a sociedade progrida sem justificativas para cometer atitudes inaceitáveis ao seu tempo.

Pedro Lacerda é advogado e escreve às segundas-feiras a coluna Parlamento em Foco, no Observatório de Olinda.

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